quarta-feira, novembro 10, 2010

Sou republicano mas não sou cego

(Imagem recolhida na internet)
No ano em que se comemoraram, com demasiada pompa, aliás - até tendo em conta a crise em que o país mergulhou graças à incompetência, compadrio e irresponsabilidade dos políticos festejantes - os cem anos da República, Nuno Rogeiro escreveu na revista Sábado, o artigo que se transcreve:
«A Primeira República tombou na ponta das baionetas, por culpa própria. Como mostra Jaime Nogueira Pinto, em Nobre Povo, criou-se um abismo entre os "ideais" de 1910 e a "prática política" do novo regime. Todo o português de lei se revê no desejo de liberdade, justiça social, humanidade, progresso, solidariedade, que agitou estudantes e professores, operários e intelectuais, militares e civis, velhos e jovens, homens e mulheres. Mas todo o português avisado se horroriza com a censura disfarçada de pluralismo, com a partidocracia cega, com o terror de Estado, com o triunfo dos mais fortes, com o regabofe e a pilhagem, a irresponsabilidade e o palavreado, a perseguição ao culto e o triunfo do oculto, a delapidação da riqueza e a balbúrdia sanguinolenta.
A República foi destruída por ex-republicanos, e não por uma qualquer conspiração exterior. No fundo, muitos criadores depressa se horrorizaram com a criatura.
Nenhuma mentira piedosa o consegue esconder."
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Infelizmente a bandalheira, prepotência, rapina do erário público, censura mascarada de pluralismo, balbúrdia, compadrio, irresponsabilidade, terror do Estado e palavreado mentiroso, repete-se na actual versão da república. Só que, desta vez, as baionetas estão a tardar demasiado.
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E U . . V I . . .
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Eu vi passar o tempo, sempre à espera
Que a sorte bafejasse o meu país
E que, vencido o medo de Quimera,
Fortuna fosse mais do que se diz.
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Eu vi passar os anos de revolta,
Por todas as partidas de Destino,
Sabendo que há um tempo, que não volta,
No Fado, que abracei desde menino.
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Eu vi as muitas Moiras, que se cruzam
No palco desta terra lusitana,
Querendo proteger a massa humana;
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Mas vi, também, as Parcas, que nos usam,
Tentando demonstrar quanto é errado
Um povo destemido ser honrado.
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Vítor Cintra
No livro: AO ACASO

2 Comentários::

At 10/11/10 6:01 da tarde, Blogger Zélia Guardiano said...

Muito, muito lindo!
Além de lindo, repleto de verdade...
Bravo!
Forte abraço

 
At 11/11/10 11:09 da tarde, Blogger Ana Martins said...

Boa noite Vítor,
muito forte e muito verdadeiro este soneto, lindo e real!

Beijinhos,
Ana Martins

 

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