domingo, junho 24, 2007

GUERRA JUNQUEIRO - Visionário ou Profeta?

(imagem recolhida na net)

No blog Duas Cidades encontrei este texto de Guerra Junqueiro que, pela sua actualidade, não resisto a transcrever:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
(...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis (...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
(...) A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;
Dois partidos (...) sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no Parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro

A P E L O

Ó tu, deusa maior da lusa gente,
Que nas histórias vivas do passado,
Ousaste, com olhar mais indulgente,
Deixar-nos ver, da terra, um outro lado.

Ó tu, Moira seráfica, sem tempo,
Chegada à Lusitânia noutra era,
Que deste aos portugueses mor alento,
Capaz de derrotar qualquer Quimera;

A nós, que somos filhos desse povo
A quem, por protecção de Juno e Marte,
Deixaste que chegasse a toda a parte,

Tecida a nossa vida em fio novo,
Demonstra que a coragem doutros tempos
Apenas nos deixou por uns momentos.



Vítor Cintra
No livro: DESABAFOS

24 Comentários::

At 24/6/07 7:28 da tarde, Blogger Paulo Sempre said...

Oitocentos anos são oitocentos anos...
Uma Pratria com séculos de história alguns traidores havia também de ter.
Abraço
Paulo

 
At 24/6/07 7:43 da tarde, Blogger Papoila said...

O texto de Guerra Junqueiro de uma actualidade que doi.
O Soneto magnífico!
Magnífico!
Beijos

 
At 24/6/07 8:39 da tarde, Blogger antónio paiva said...

......................

Amigos,

hoje tal como ontem?

eu diria: hoje muito pior que ontem!

quanto ao poema, tal como sempre magnífico!

.....................

Abraço e boa semana

 
At 24/6/07 9:52 da tarde, Blogger Ana S. said...

Olá Vitor.
Infelizmente o texto continua actual. Eu bem digo que é preciso mais uma revolução! O sentimento de "contentamento descontente" é demais.
Lindo poema.
Beijos

 
At 24/6/07 11:12 da tarde, Blogger sonhadora said...

Venho maravilhar-te a noite.
Amanhã talvez seja tarde para mim.
Beijinhos embrulhados em abraços

 
At 24/6/07 11:41 da tarde, Blogger CAntonio said...

Caro Vitor,

Guerra Junqueiro está atualíssimo. Esse texto cai como uma luva para nós aqui no Brasil.

APELO:

Como sempre, o que comentar de texto tão belo?

Abraços calorosos

 
At 25/6/07 5:41 da manhã, Anonymous Anónimo said...

4646
71912551 1 4635, 453 1469.
897... 897... 83991!!!!!!!!!!!

7313991

 
At 25/6/07 12:59 da tarde, Blogger Joana Dalila Santos said...

Lindo

 
At 25/6/07 5:37 da tarde, Anonymous ©õllyß®y said...

Dizem que de poetas e loucos todos temos um pouco, na verdade,ha magnanimos e magnificos...

Bjca doce

 
At 25/6/07 6:47 da tarde, Blogger Lua enfeitiçada said...

ola :)

passa no meu blog... tens lá uma surpresa :)

beijinhos enfeitiçados pela lua :)

 
At 25/6/07 9:06 da tarde, Blogger Cris said...

Tecida a nossa vida em fio novo,
Demonstra que a coragem doutros tempos
Apenas nos deixou por uns momentos.


Era bom que a valente coragem lusitana voltasse....

Bjo
C.

 
At 25/6/07 9:45 da tarde, Blogger Rosa Silvestre said...

Um poema com um conteúdo muito actual. Vejo que as férias fizeram bem....vens inspirado!Parabéns!

 
At 25/6/07 11:03 da tarde, Blogger Entre linhas... said...

Um poema muito actual,cada momento uma etapa da vida.
Bjs Zita

 
At 25/6/07 11:05 da tarde, Anonymous Rodrigo said...

Oi, achei teu blog pelo google tá bem interessante gostei desse post. Quando der dá uma passada pelo meu blog, é sobre camisetas personalizadas, mostra passo a passo como criar uma camiseta personalizada bem maneira. Até mais.

 
At 27/6/07 3:40 da manhã, Anonymous hilda said...

Lindo, sensível e pungente "Apelo".

O texto, ah o texto... encaixa-se muito bem no meu Brasil.

Bom retorno à blogosfera, você faz falta nela.
Beijos

 
At 27/6/07 9:03 da tarde, Blogger foryou said...

Ahhhh voltaste!! :)
(estás bem, não estás?!!)

Conheço esse texto... vem bem a propósito

 
At 28/6/07 3:16 da manhã, Blogger Saramar said...

Vitor, seu soneto é simplesmente maravilhoso. Lembrou-me Castro Alves e a poesia condoreira.
Lindo, lindo!

Quanto ao texto do Guerra Junqueiro, meu amigo, é a cara do Brasil.
Com sua permissão, irei reproduzi-lo em meu blog de política (http://lidosevividos.blogspot.com).
Obrigada.

beijos

 
At 28/6/07 8:00 da manhã, Blogger MRelvas said...

Olá Vitor, a inércia de um povo adormecido pela música e sonambulismo de governantes sem horizontes para a Nação, mas imbecilizados na busca incessante de mordomias e tachos!

Abraço

MRelvas

 
At 28/6/07 9:45 da manhã, Blogger Sophie said...

Olá Amigo,
Não é fácil falar de Guerra Junqueiro. Não porque dele não haja nada que dizer, mas, ao contrário, porque dele há muito que dizer.
Ás vezes, nós não somos só nós, mas nós e as nossas circunstâncias, nós e a época em que vivemos. Junqueiro entusiasmou-se com a época em que viveu, assumiu-a em pleno e com ela se identificou. Junqueiro não queria ser medíocre. Junqueiro vivia os problemas que o rodeavam, envolvia-se neles e lutava.
Um beijo
Ana

 
At 28/6/07 11:55 da manhã, Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Caro Vitor Silva:

Este magnifico texto é de uma actualidade surpreendente, infelizmente para todos nós a denotar que etamos cada vez pior.

Um abraço

 
At 29/6/07 2:10 da tarde, Blogger PoesiaMGD said...

Tão actual... não é?!
Adorei conhecer-te!
Um abraço

 
At 29/6/07 11:01 da tarde, Blogger Vida said...

Texto de muita actualidade, tanta que até custa acreditar ter tantos anos, porque será? Pelos vistos a classe política já era mal representada na altura e continua... é o descrédito.

Beijos e um bom fim de semana.

 
At 29/6/07 11:27 da tarde, Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Vítor,
Depois da leitura deste texto, tenho que concluir que foi as duas coisas ao mesmo tempo, visionário e profeta.
Abraço.

 
At 30/6/07 4:20 da tarde, Blogger Escorpiana Explosiva said...

bom tudo o q eu tinha pra falar todos os amigos aqui ja,colocaram mas mesmo assim digo pra vc q esta maravilhoso o texto e o poema fiquei encantada.
vejo q as ferias de deixaram com a corta toda.

 

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