terça-feira, agosto 30, 2011

Nova habilitação profissional

(Imagem recolhida na internet)

"Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço».
Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc. ..
Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada.
O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.
Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu.
O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu.
Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.
(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional.
O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês."


Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume" .

* * * * * *

Pode ou não concordar-se com o estilo e até com a linguagem, mas indiscutível é a verdade do que ele diz.
A que ponto chegou este nosso Portugal.
.
A P E L O
.
Ó tu, deusa maior da lusa gente,
Que, nas histórias vivas do passado,
Ousaste, com olhar mais indulgente,
Deixar-nos ver da terra um outro lado;
.
Ó tu, Moira seráfica, sem tempo,
Chegada à Lusitânia noutra era,
Que deste aos portugueses mor alento,
Capaz de derrotar qualquer Quimera;
.
A nós, que somos filhos desse povo
A quem, por protecção de Juno e Marte,
Deixaste que chegasse a toda a parte,
.
Tecida a nossa vida em fio novo
Demonstra que a coragem doutros tempos
Apenas nos deixou por uns momentos.

.

Vítor Cintra

No livro: ENTRE O LONGE E O DISTANTE

4 Comentários::

At 3/9/11 1:11 da tarde, Blogger Mel de Carvalho said...

Vítor, o texto é forte, o estilo único, mas como diz e muito bem, a verdade, triste e vergonhosa verdade, está lá.
...

O seu soneto marejou-me os olhos, acima de tudo o mais, porque o conheço, Vítor, e tenho de si a imagem de um homem com "H" grande.
Que os Deuses o oiçam e nos ajudem a ser dignos de tecer novos fios à História de Portugal.

Bem haja, um abraço forte, saudoso e amigo.
Mel

 
At 5/9/11 8:38 da manhã, Blogger tb said...

Virão tempos em que todas as sementes de tempos assim desaparecerão e esperemos que as que renasçam sejam dignas de Humanidade com H muito grande.
Como sempre é bom passar por aqui.
Grande abraço.

 
At 6/9/11 11:04 da tarde, Blogger carlos pereira said...

Meu caro Poeta Vitor Cintra;
Obrigado, pela colagem do excelente texto do Miguel Esteves Cardoso. Quanto á linguagem, que é uma imagem de marca do autor, aceito-a e exalto-a, porque ela é, por si só, uma forma exemplar de não "culambismo". Ainda bem que, ainda há escrivas que não têm medo de chamar os bois pelo nome.
Quanto ao seu soneto é, simplesmente bom.
Um abraço.

 
At 18/9/11 3:20 da tarde, Blogger Mário Relvas said...

Olá Vitor Cintra, mais um texto interessante e mais um poema de vez em quando. Gostei de passar.

Um abraço do Mário

 

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