segunda-feira, agosto 06, 2007

Alguém me disse... Parte 4

A respeito do que penso e do que escrevo...

VAMOS FALAR DE RÓTULOS?

Em comentário feito de frases curtas, mas carregado de significativas insinuações, foi-me manifestado o desagrado pelo meu 'atrevimento' em abordar temas que, ao que parece, continuam a incomodar. Vá-se lá saber porquê...
E o "comentário" começava por questionar-me nestes termos: "Diga-me lá, você é retornado?" 'ipsis verbis'.
* * * * * * * * *
Em bom português "retornar" significa "regressar", ou "voltar ao ponto de partida".
Em bom português, portanto, vamos ver se consigo satisfazer a curiosidade do inquiridor.
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Na década de sessenta, cumpri serviço militar. Fui mobilizado e embarquei para terras de além-mar, para cumprir uma comissão de cerca 30 meses.
Não fui voluntário! Como não o foram, aliás, a grande maioria dos homens da minha geração. MAS NÃO FUGI!
Regressei vivo e inteiro, graças a Deus. O que, infelizmente, não aconteceu a muitos outros. E, sendo assim, a minha resposta só pode ser, clara e inequivocamente, uma: SOU RETORNADO!
Sei perfeitamente que não era esta a resposta pretendida. Lamento desiludi-lo, senhor "demokrata".
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Sendo Portugal, durante décadas um país de emigrantes, a pergunta parece até despropositada.
Sê-lo-ia, de facto, não fosse a insidiosa carga negativa subjacente, na linguagem dos auto-intitulados "demokratas" domésticos, surgidos sabe-se lá de onde, no 26 de Abril de 1975.
Hábeis a rotular terceiros, sentem-se, contudo, incomodados, quiçá ofendidos, quando alguém lhes belisca os brios.
Para quem não está a par de tão "demokrática" linguagem, fica o esclarecimento:
"Retornado" foi o rótulo, inventado em 1975 pelos "demokratas" emergentes (quantos deles mantendo ainda o respectivo cartão da UN - bem guardado embora, mas intacto - não fosse o demo tecê-las) para rotular todos os que vinham das antigas colónias, quer fossem retornados, refugiados ou imigrantes. Numa - bem pouco imaginativa, aliás - imitação, de resto, do epíteto "pés negros", inventado em França, cerca de 15 anos antes, para injúria dos oriundos da Argélia.
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Desse tipo de linguagem me demarco hoje, como o fiz então. E não apenas pelo facto de muitos desses retornados, refugiados e imigrantes me terem recebido lá, num período difícil, com real hospitalidade e inesquecível urbanidade, honrando-me, ainda hoje, com a sua amizade, mas também porque, quem a usa, revela a sua enorme magreza de carácter.

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T E M A S
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Deixei, nas rimas breves dos poemas,
Fantasmas, dum passado que me marca,
Surgidos na memória, que os abarca
Aos poucos, revelados nos meus temas.
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Ao longo do percurso duma vida,
Calei um sentimento de revolta
Por mágoas dum passado, que não volta,
Tomadas duma Pátria mal cumprida.
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Não fui um desertor!... Nem deixei penas
Em causas, fossem grandes ou pequenas,
Daqueles que mandaram no país.
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Calar, porém, aqueles que tombaram,
Desonra os governantes que ficaram,
Mostrando a tacanhez mais infeliz.
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Vítor Cintra
No livro: RELANCES

10 Comentários::

At 7/8/07 12:10 da manhã, Blogger aryana said...

"Retornado",porque ainda dói?
Se passados tantos anos esta palavra ainda perturba,não é pela palavra em si que é como tantas outras,mas sim pelos dramas de vida que lhe estão associados:para os que de cá nunca saíram, a vinda de tanta gente e em tão pouco tempo,significou a dificuldade de emprego"que era certo"entre muitas outras particularidades.Por outro lado, os melhores postos de trabalho também não o foram para os que cá estavam.
Quem veio,porque obrigados e sem que o tenham pedido,deixaram para trás anos e anos de trabalho, todos os bens que possuíam e um estilo de vida bem mais evoluído e prazeroso que este que lhe impingiram.
Se de uma querra entre pessoas se tratasse,diria que ambas as hostes se hostilizaram sem culpa de parte a parte,apenas porque de um miserável país se tratava e trata, e ninguém estava preparado para tão profundas alterações sociais.
Sinto que ambas as partes perderam pedaços das suas vidas jamais recuperáveis,por culpa da insensatez e falta de visão de uns tantos senhores que se borrifaram para as consequências a curto,médio e longo prazo de milhares de seres humanos.
Ainda dói e vai doer á próxima geração.

 
At 7/8/07 1:59 da manhã, Blogger antónio paiva said...

......

Olá Amigo,

é em momentos assim que apetecia...., não escrevo porque este é um blog de respeito, bem como de alguém que muito estimo

.......................

Abraço

 
At 7/8/07 2:40 da manhã, Blogger Rosa Silvestre said...

Olá Vítor, ainda não fui de férias e ainda bem que o tempo não convida!
Mais um post muito bem conseguido (nem esperava que sssim não fosse) com resposta à altura da algumas magrezas de espírito que por aí abundam,infelizmente, os tais demokratas que de democratas, muitas vezes, nas acções nada têm!
Parabéns!

 
At 7/8/07 9:58 da manhã, Blogger Pecadormeconfesso said...

Ao longo do percurso duma vida,
Calei um sentimento de revolta
Por mágoas dum passado, que não volta,

 
At 8/8/07 4:18 da tarde, Blogger Papoila said...

Vitor Cintra:
Venho de visita pé ante pé...(é suposto estar de férias...) porque aqui neste espaço sempre encontrei cultura, ausência de "rótulos" e ideais humanistas por isso o visito.
Parabéns!
Beijos

 
At 8/8/07 6:16 da tarde, Blogger Isabel-F. said...

"...
não fosse a insidiosa carga negativa subjacente, na linguagem dos auto-intitulados "demokratas" domésticos, surgidos sabe-se lá de onde, no 26 de Abril de 1975.
"....

e infelizmente continuam a existir ... passados que foram tantos anos ...

sei bem o que isso quer dizer ...

beijinhos

 
At 8/8/07 11:48 da tarde, Blogger Entre linhas... said...

"Retornados" uma palavra muito mal rotulada talvez quem a ultiliza tenha uma grande falta de noção da mesma.
Texto muito bem estruturado e muito bem respondido!!
Bjs Zita

 
At 9/8/07 2:43 da manhã, Blogger Odele Souza said...

O rótulo me incomoda muito.Reduz as pessoas a um termo simplesmenete.

Um beijo.

 
At 9/8/07 12:08 da tarde, Blogger M R said...

Caro Victor, estou de férias, mas mesmo assim não resisto a visitar os amigos e este teu blog é um "ex-libris" para meu regalo.

Meu amigo, essa palavra "retornado" é um nojo.

Recordo que o meu irmão com apenas dez anos lhe perguntavam como era viver no meio dos leões (que falta de cultura...). Recordo também as vezes que o meu falecido e querido avô o tinha que ir esperar à saída da escola porque lhe faziam esperas...por ter nascido em MOÇAMBIQUE!

Recordo também que no Colégio da Via Sacra, onde estudei no ano de 1975, o pof de português dizia na sala de aulas:
- Não têm vergonha que aquele que veio lá dos pretos tire a melhor nota a PORTUGUÊS?

Comigo não faziam farinha, pois tive sempre a capacidade de os mandar pastar com elevação. Mas muitas vezes foi difícil.

Recordo também que, apesar dos tempos conturbados, em que abandonados pelo governo português à sorte das Frelimos, MPLAs e outros, os ditos "retornados" com sentido negativo, fizeram prosperar os negócios, trazendo inovação e abertura a um rectângulo fechado e sem horizonte.

Não foi fácil, como nada é fácil na vida, principalmente depois de um abandono de uma vida a que se tinha dedicado tudo.

Recordo ainda que os meus avós, cerca de um ano antes do 25, vieram à "Metrópole" venderem os terrenitos e casa que tinham na aldeia beirâ e levaram o dinheiro para Moçambique -Portugal!

Ali era a nossa vida e ninguém pensava em "RETORNAR".

Eu nasci em Moçambique, com orgulho.

Com orgulho mesclado de mágoa continuo a amar África e triste vejo este rectângulo infestado de DEMOKRATAS insidiosos e pastelentos destruidores dos ideais Pátrios.

Víctor -obrigado por mais este post MAGNÍFICO!

Mário Relvas

 
At 21/8/07 11:30 da tarde, Blogger Å®t Øf £övë said...

Vítor,
O melhor que temos a fazer é ignorar esse tipo de comentários, porque me parece que eles têm como objectivo fazer com que cada um de nós desista do seu espaço para não ter problemas.
Acho que a melhor resposta que se pode dar a este tipo de situações é ignorá-las e seguir em frente o nosso caminho.
Abraço.

 

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