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Título da foto: Salvamento)
Os textos e a imagem foram-me enviados pela minha amiga Alvani, com quem me sinto solidário, pela catástrofe que atingiu a sua belíssima Santa Catarina.
A ti, Alvani, ao autor deste excelente texto e a todos os Santacatarinenses, dedico este post.
«Meus amigos,
Hoje 28 de Novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar.
A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta “folga forçada” a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter aonde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.
As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagens claras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando e descrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas.
Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos.
As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperar-la no seguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.
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Que aquela entidade superior que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, GADU etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:
- Que se aproveitaram da situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros
- Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assim como a estrutura física da mesma.
- Que pediam 5 reais por um litro de água mineral.
- Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás.
- Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas.
- Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas
- Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava.
- Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para não terem suas casas saqueadas.
- Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração.
- Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas. .
Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:
- Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma.
- Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver.
- A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença.
- À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida.
- Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul.
- Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras que trouxeram caminhões e caminhões de mantimentos.
- Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram como veteranos.
- Aos Bombeiros e Polícias locais que resgataram, cuidaram , orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas.
- Aos Médicos Voluntários.
- Às enfermeiras Voluntárias.
- Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos.
- Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exército que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso.
- Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar.
- Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade.
- Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa.
- Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem.
- Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos.
- Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem.
- A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa.
- A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou.
- A todos que oraram por todos.
- Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas.
- Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira.
- A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente.
- A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém.
- A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.»
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«Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:
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COMEÇAR DE NOVO
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Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz;
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa laje;
Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério;
Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires
Até que me deram abrigo e alimento;
Eu tinha aversão a Judeus
Até darem remédios aos meus filhos;
Eu adorava exibir a minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com hipotermia;
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida
Até que tive fome;
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água;
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas;
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar;
Eu não lembrava os idosos
Até participar dos resgates;
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome;
Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas;
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos;
Eu não ouvia rádio
Até ser ela que manteve a minha energia;
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias;
Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos
Agora nem tanto;
Eu vivia numa comunidade com uma classe política
Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora;
Eu não lembrava o nome de todos os estados
Agora guardo cada um no coração;
Eu não tinha boa memória
Talvez por isso eu não lembre de todo mundo, mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos;
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão;
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele.
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio, Graças a Deus.
Vamos começar de novo.
(Anônimo)
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É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente. Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescer como ser humano. Pelo menos é a minha hora, acredito.
Que Deus abençoe a todos. »